Written by Anonymous
Os Stadhouders, como os governantes em geral, são cognominados por seus vários feitos ou pelas suas missões. E povoar os sertões era uma grande preocupação de João Filipe, Conde-Príncipe de Laurentia e primeiro de sua casa a assumir o posto de Stadhouder das Províncias Unidas. Por seu esforço em povoar os sertões após as serras da Borborema, ele ganhou a alcunha de "O Pioneiro". O homem, apesar de ter um porte imponente e uma postura digna de um dos leões de bronze do Chatêau Brennand, tinha também suas excentricidades. O excerto do diário de um de seus conselheiros dizia que "o homem era meio de lua". Por vezes faltava às reuniões que ele mesmo convocava porque havia marcado qualquer outro compromisso num átimo, e muitas vezes não dormia à noite, especialmente em seus primeiros anos de governo. Não há muitas fontes que tratem de suas condições mentais, mas especula-se que ele poderia sofrer de dupla personalidade. Em especial, dois dos seus passatempos causavam preocupações aos seus guardas. O primeiro era o seu apaixonado interesse por banhar-se inteiramente nu no mar, confirmado por um de seus diários. "Desde muito moço, banhei-me nas águas dos rios do sertão. Nos idos de quando meu pai, Matias, senhor de Laurentia, ia comercializar com os negros da terra, levava-me e deixava-me aos cuidados das mulheres. Porque haveria eu de deixar este hábito?" "Impropério", diziam os nobres. "Sacrilégio", diziam os clérigos. "Louco de pedra", dizia o povo. "Salgadinho", diziam as prostitutas, que eram a segunda causa de preocupação de seus pares. Havia um constante temor de que o Stadhouder adquirisse uma doença venérea, porque não se podia descuidar um momento e lá estava o homem indo em direção aos distritos mais malvistos pela sociedade. Não há, evidentemente, formas de precisar quantos prostíbulos o homem visitou em Mauritsstad e suas cercanias (admite-se que ele tenha visitado todos os que existiam na época, porém sem dados, não há como dar um número), para o desgosto de sua esposa, Maria da Glória, que era vista como uma mulher conformada, porém que não aceitava as liberdades do marido. "Meu Augustíssimo Marido padece de diversos vícios, e sua luxúria é o pior deles. Incapaz de pertencer apenas a mim, envolve-se em relações inapropriadas com qualquer meretriz que pareça um pouco mais européia. Por vezes, maldigo o dia em que meu pai aceitou casar-me com este homem", revela a mulher em seu diário. Porém, todas as "relações" de João Filipe, com o perdão do trocadilho, acabaram por ser vitais para o andamento de seus planos para a expansão de Maurícia. Em 1728, por ocasião de seu primeiro ano de governo, João Filipe, então com trinta e quatro anos, emitiu alguns Régios Decretos que causaram furor entre os setores mais conservadores da política maurense, oferecendo terras, dinheiro e posições de pequena importância a homens que desposassem prostitutas e com estas formassem famílias capazes de povoar o sertão. Esta medida tinha, segundo suas próprias palavras, duas intenções. Diminuir a quantidade de prostitutas nos bordeis da capital maurense, que não eram exatamente os lugares mais salubres para se viver, e criar famílias que povoassem os lugares mais ermos, onde apenas os tropeiros haviam passado até então. Apesar de impopular entre os setores conservadores, a tal lei agradou e muito a população mais pobre, que logo estava casando a torto e a direito, para conseguir o seu quinhão de terra. E esta não foi a única de suas medidas "alcoviteiras", como foram chamadas pelas escandalizadas elites católicas, que muito contribuíram para a pressão política que causou a sua abdicação em 1729. À medida que a população nos senhorios mais afastados crescia, aumentava também o número dos meeiros, posseiros e toda sorte de trabalhadores livres e escravos que iam tentar a sorte trabalhando nas lavouras e na pecuária. Para garantir que estes homens "deixassem frutífera geração sobre a terra", por pelo menos doze vezes, de novembro de 1727 a março de 1729, João Felipe mandou pagar, de sua própria dotação, o dote de prostitutas que "quisessem levar vida mais digna". Alguns registros dão conta de que cerca de 40 mulheres receberam dinheiro ou bens para estabelecer famílias em localidades do sertão das províncias de Woestein e da Paraíba. João Filipe morreu em 12 de Junho de 1752, deixando quatro filhos. Isto é, quatro filhos legítimos, entre eles Alexandre João, Stadhouder de Maurícia de 1762 a 1766. Não há informações sobre bastardos, porque supõe-se que muitos dos seus registros pessoais, em especial os de Mauritsstad, foram queimados após sua morte, a mando de Maria da Glória.